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Com 1.473 obras, casa de Roberto Marinho vira centro cultural no Rio

Kamille Viola

Colaboração para o UOL, no Rio de Janeiro

24/05/2018 04h00

A casa onde viveu o jornalista Roberto Marinho sempre foi motivo de curiosidade na vizinhança onde fica, no bairro do Cosme Velho. Cercada por um fosso (onde corre o Rio Carioca, que se estende por dentro do terreno), parcialmente escondida pelo muro e por árvores, fica em um terreno que ocupa um quarteirão inteiro. Desde o dia 28 de abril, no entanto, o mistério chegou ao fim: o lugar onde o jornalista viveu de 1943 até sua morte, em 2003, foi transformado em um centro cultural e abriu suas portas para o público.

Agora todos podem visitar o casarão neocolonial de 1939, que teve por referência o Solar de Megaípe, construção pernambucana do século 17. As paredes externas são cor-de-rosa. O jardim, originalmente projetado por Burle Marx, com espécies da flora tropical, é um prolongamento da Floresta da Tijuca. Ali, estão obras dos artistas Ascânio MMM, Bruno Giorgi, Carlos Vergara, Maria Martins e Raul Mourão. Há ainda uma obra de Beth Jobim, adquirida mais recentemente pela família Marinho.

O espaço ganhou também um prédio de reserva técnica, espaço educativo, um café e uma livraria especializada em arte. Com mais de 1.200m² de área expositiva, o lugar conta com uma sala de cinema (que originalmente ficava no segundo andar e foi movida para o primeiro piso).

Ricardo Borges / UOL
Imagem: Ricardo Borges / UOL

O primeiro pavimento conta com um piano que originalmente pertenceu à casa — ali, Roberto Marinho recebeu importantes personalidades estrangeiras e brasileiras, além de saraus, shows e espetáculos de teatro. A portuguesa Amália Rodrigues, Pixinguinha e Dorival Caymmi se apresentaram no casarão. Mas a intenção não foi fazer uma casa-museu, preservando o local como era quando na época em que seu antigo dono vivia ali, e sim transformar a construção em um centro cultural.

Apreciador de arte, o jornalista tinha em seu acervo 1.473 obras. Para a abertura, a mostra "Modernos 10, Destaques da Coleção" reuniu no segundo andar 124 trabalhos de dez expoentes do modernismo brasileiro dos anos 1930 e 1940: Tarsila do Amaral, Lasar Segall, Cândido Portinari, José Pancetti, Ismael Nery, Alberto Guignard, Djanira, Di Cavalcanti, Milton Dacosta e Burle Marx.

O magnata costumava investir em novos talentos que considerava promissores, e alguns deles se tornaram seus amigos, como Portinari e Pancetti — é dele, por sinal, o quadro preferido de Marinho, "O Boneco", que integra a exposição

Já o térreo recebe a mostra "10 Contemporâneos", com os artistas Anna Bella Geiger, Carlos Vergara, Daniel Senise, José Bechara, Lena Bergstein, Luiz Áquila, Luiz Zerbini, Malu Fatorelli, Roberto Magalhães e Wanda Pimentel. Eles foram convidados a criar gravuras em torno do tema "casa", para homenagear o novo espaço.

Outros destaques são uma escultura de Frans Krajcberg e trabalhos de Cristina Canale, Luiz Zerbini e Orlando Mollica, que homenageiam a paisagem carioca, ao lado de litogravuras de Jean-Baptiste Debret.

Abertura

Ricardo Borges / UOL
O curador Lauro Cavalcanti Imagem: Ricardo Borges / UOL

Os três primeiros dias de casa aberta atraíram quase 4 mil visitantes. "Superaram em muito nossas expectativas, e estamos muito orgulhosos", comenta o arquiteto, antropólogo e curador Lauro Cavalcanti, diretor da Casa Roberto Marinho. "A gente tem sentido as pessoas contentes com uma coisa importante para o Rio abrindo num momento difícil como agora. Considero a mim e à minha equipe muito sortudos de termos sido convidados para montar um projeto em uma instituição nova nesse momento. Eu me sinto feliz de poder estar realizando na minha cidade um trabalho de excelência. As pessoas percebem que estão em um lugar que tem um projeto bacana. Tem sido muito positivo", comemora.

A assistente contábil Nathally Soares, 27 anos, e o estudante de direito Edvaldo Junior, 27, visitaram a Casa Roberto Marinho no fim de semana da abertura e aprovaram o espaço.  "Tudo é sensacional, a começar pelo jardim, que foi projetado pelo Burle Marx, o casarão em si e o acervo dele, que é surreal", elogia Edvaldo. Para ele, o preço do ingresso é outro ponto positivo. "Existem muitos casos em que se paga meia, R$ 5 é um valor bem OK", comenta.

Para Nathaly, o ex-morador ilustre atrai um público que normalmente não iria a uma exposição de arte. "Eu digo isso pela nossa família: fomos em um grupo grande, e mães e tias estavam interessadas em ver a casa. Chegando lá, a gente se depara com pinturas de Tarsila do Amaral, Di Cavalcanti, Portinari, todo mundo fica encantado e quer parar para ler, conhecer", conta ela.

O diretor do espaço está animado com a adesão e tem planos para o futuro. Um dos focos da Casa Roberto Marinho é o viés educacional. Lauro Cavalcanti também pretende fazer projetos para a terceira idade, abrir o jardim para artistas contemporâneos e realizar leituras teatrais. "Uma coisa que queremos muito é contribuir para a melhoria do bairro, botar gente andando na rua, ocupar o espaço. Existem alguns coletivos aqui com os quais estou querendo fazer contato, ter uma interlocução. Os perfis são bem diferentes, não é que necessariamente vamos fazer coisas juntos, mas acho que isso pode provocar algumas ações. A potência do território de cultura e arte é associativa", defende ele.

Ricardo Borges / UOL
Jardim da casa de Roberto Marinho. Imagem: Ricardo Borges / UOL

Em outubro, a casa recebe a exposição "Oito Décadas de Abstração Informal", em parceria com o Museu de Arte Moderna de São Paulo. "O nosso Construtivismo é uma maravilha, adoro, fui formado nele, inclusive fui aluno da Lygia Pape, mas essa outra parte, que minha geração foi ensinada a desprezar, é interessantíssima. A gente está fazendo um pouco um resgate, que é também a função de curador, é levantar outras possibilidades de olhar", analisa Cavalcanti.

O museu também recebeu de presente dois quadros de grandes dimensões de Ingeborg Ten  Haeff (1915-2011), artista plástica alemã que foi casada com o médico, político e diplomata Lutero Vargas (1912-1989), filho de Getúlio Vargas (1882-1954), e com quem teve uma filha, Cândida (1941-2003). Ela viveu no Brasil de 1940 a 1944, quando se divorciou de Lutero e foi para Nova York, onde ficou até o fim da vida.

"Eu a conheci, em 1996, por causa de um livro que escrevi. Há alguns anos, o viúvo me procurou dizendo que não queria que ela sumisse da cena brasileira, que o Brasil tinha sido uma parte importante da vida dela e que ele gostaria de sugestão de uma instituição para onde ele gostaria de doar dois trabalhos. Na época, indiquei outro espaço e não deu certo", conta Lauro Cavalcanti.

Vai lá:

Instituto Casa Roberto Marinho.

Onde: Rua Cosme Velho, 1.105, Cosme Velho - Rio de Janeiro. Tel: (21) 3298-9449.

Quando: Terça a domingo, das 12h às 18h

Quanto: R$ 5 (meia) e R$ 10. Grátis às quartas.

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