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Com "coração no spray", 4ª Bienal de Graffiti Fine Art abre neste sábado

Sté Reis

Colaboração para o Urban Taste, em São Paulo

06/10/2018 04h00

"Tec tec tec tec", soam as latinhas. É o penúltimo dia de preparativos para a 4ª Bienal de Graffiti Fine Art, pela primeira vez no Memorial da América Latina. Enquanto as portas não se abrem para o público, que pode visitar a partir da manhã deste sábado (6), a música toca alto, os artistas retocam as obras, o clima é leve e embebedado de cheiro de tinta.

Com curadoria do veterano Binho Ribeiro, um dos precursores da street art no Brasil, a Bienal ocupa três espaços do museu. Uma galeria a céu aberto e instalações, uma mais intimista dentro da Biblioteca Latino Americana e a maior delas na Galeria Marta Traba, de frente para a emblemática "Mão", monumento de Oscar Niemeyer que sangra a América Latina. "O Memorial é um templo, não existe um grafiteiro que não olhe para essas paredes do Niemeyer e não fique louco para um dia passar por aqui", diz Binho.

Uma das principais galerias do museu, antes consumida por pó e vazio, é tomada de cores em um espaço amplo que impacta logo na entrada. O dinamismo na disposição das paredes favorece as obras dos 83 artistas, que podem ser apreciadas em sua amplitude. As maiores têm até quatro metros de largura por três de altura, um espelho do desenvolvimento do muralismo, novas técnicas e o talento para o improviso de cada um.

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Produzida sem nenhum patrocínio, a Bienal buscou apoios pontuais para a sua realização e contou com a parceria dos grafiteiros que investiram os próprios tempo e recursos para vir a São Paulo apresentar sua arte. Binho diz que a força motriz do grafite fez com que não desistissem. "Em nenhum momento passou pela minha cabeça cancelar o evento por falta de dinheiro. Conseguimos grandes parceiros e temos o mais importante: a vontade, o coração no spray."

Em um momento em que muitos eventos são cancelados por falta de verba, a Bienal encontrou no museu, nos artistas e no patrocínio das tintas, o suficiente para dar um presente à cidade, atualmente um dos principais polos de arte urbana do mundo. "As dificuldades não diminuem o brilho dos artistas. O Memorial é o melhor lugar que posso imaginar para uma exposição popular e contestadora. Para muita gente, se é grafite não pode ser arte, se é arte não pode ser grafite. A gente está conseguindo mostrar esse altíssimo nível de muitos jovens talentos, as pessoas não imaginam o que elas vão encontrar quando chegarem por aqui." 

Mulheres e estrangeiros

Honrando a história da anfitriã colombiana que batiza a galeria, a Bienal apresenta neste ano seu maior número de mulheres: 20. Entre elas, Ananda Nahu (Bahia), Grazie Gra (São Paulo) e Antisa (Chile). "Desde o formato curatorial, me preocupo em expor estilos diferentes, culturas, técnicas, pessoas que têm representatividade diferentes, histórias diferentes. Cada uma delas consegue se comunicar com um público muito amplo", explica. A Bienal que já trouxe o grafiteiro americano John Howard, na época com 83 anos, este ano expõe seu artista mais jovem, Jun, de cinco anos, filho dos grafiteiros Inea e Katia Suzue.

Entre os artistas gringos presentes está Moh Awudu, de Gana, que conheceu Binho em um evento no Brasil. "Na época, ele ainda não tinha se desenvolvido tecnicamente por causa da falta de acesso a materiais, não tinha sprays próprios para a arte", conta Ribeiro. Passados seis anos, eles continuam se falando sempre. "Ele é um amigo e um admirador. Não tínhamos recursos para trazer artistas de fora, então uma das grandes conquistas que eles tiveram em seus países foi viabilizar a vinda. Quando ele chegou aqui, para mim foi muito importante, tanto quanto foi para ele."

Em sua versão mais tecnológica, este ano a Bienal disponibiliza QR Codes e o perfil do Instagram de cada artista, uma maneira das pessoas levarem a arte para casa. "Da mesma forma que a gente se comunica na rua, através da tecnologia e da visibilidade, a ideia é que admiradores de um ou outro artista consigam entrar nesse mundo de uma maneira mais aprofundada", explica. Há três anos, quando rolou o primeiro evento, o Instagram mal tinha começado. "O público e os artistas vão virar jornalistas, multiplicadores da nossa experiência aqui, levando para diversos outros lugares e pessoas do mundo."

Elza Cohen / Divulgação
Binho Ribeiro, curador da 4ª Bienal de Graffiti Fine Art Imagem: Elza Cohen / Divulgação
Sobre o futuro do grafite em tempos políticos acalorados, Binho deixa que a Bienal fale por si só. "É difícil conter artistas para não entrar na onda das eleições. Mas estamos em um lugar público, com diversas maneiras de pensar, abertos para visitação de crianças. Obviamente tenho que seguir as leis que já existem. Não posso ter violência, racismo, religião e política. Esse cuidado foi importante para que a gente não tivesse a exposição afetada pelo momento que o país vive", comenta. "Algumas obras, se você parar para analisar, têm sim alguma influência, esse recado pessoal de cada artista. Porém, de uma maneira mais lúdica, mais inserida no contexto da obra do que explícita. Nós temos dois caminhos nítidos, basta olhar a história”, finaliza, com o monumento emblemático iluminado ao fundo. 

Vai lá

4° Bienal de Graffiti Fine Art
Memorial da América Latina
Av. Auro Soares de Moura Andrade, 664 - Barra Funda
De 6 a 28 de outubro, das 9h às 18h.
Evento gratuito.

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