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Cultura e lazer

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Trilhas do Rio sofrem com assaltos e degradação; descubra quais visitar

Divulgação
Morro da Urca Imagem: Divulgação

Marcela Braz

Colaboração para o Urban Taste

30/10/2018 04h00

Engana-se quem pensa que as praias são donas de todas as atenções no Rio de Janeiro. De uns quatro anos para cá, cada vez mais turistas e locais buscam as trilhas da cidade para suar a camisa e entrar em contato com a natureza. E também para postar fotos bonitas no Instagram e no Facebook, como têm notado as unidades de conservação dos parques nacionais. O problema é que um grande número de pessoas sobrecarrega algumas vias e, em diversos caminhos, os trilheiros têm sido alvos de assaltos.

"A gente tá assustado com a repercussão das trilhas, tanto para nós montanhistas, como para os bombeiros e os parques", conta Waldeci Matias, do Centro Excursionista Rio de Janeiro (CERJ), sobre o aumento da procura por esse tipo de atividade. O Parque Nacional da Tijuca, um dos maiores da cidade, notou esse crescimento no número de visitantes e vê essa popularização decorrente principalmente de fotos postadas em redes sociais.

Quando existe uma grande concentração do público nas mesmas vias, o impacto ambiental é maior e os caminhos sofrem degradação. Segundo a organização do parque, as principais consequências para o meio ambiente associadas a isso são pichações, incêndios, estrago da vegetação, maior volume de lixo, a abertura de atalhos, ou seja, quando saem do caminho oficial e desmatam para abrir outros trajetos, e o aumento da compactação do solo -- o excesso de pisadas vai "amassando" a terra, que passa a absorver menos água da chuva e, como resultado, ela corre pela superfície e com mais velocidade, vai erodindo, arrancando parte da terra.

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Ao olhar imagens bonitas nas redes sociais, as pessoas decidem protagonizá-las a qualquer custo, sem se preocupar com as especificidades de cada caminhada, o que leva a outro ponto de atenção: o despreparo para encarar trajetos de maior dificuldade. Isso acontece com a trilha da Pedra da Gávea, uma das mais procuradas no Rio. Motivos para ela bombar não faltam: é o maior monolito à beira mar do mundo, com 844 metros de altura, e a vista de lá de cima é deslumbrante. Mas é uma caminhada pesada, que pede bastante preparo físico e experiência. "Toda semana os bombeiros estão lá para tirar gente que torce o pé, se perde, está sem lanterna", alerta Waldeci.

Jorge Oliveira / Divulgação
Fila para tirar foto na trilha da Pedra do Telégrafo Imagem: Jorge Oliveira / Divulgação
Outro caso é a Pedra do Telégrafo: um ponto praticamente desconhecido antes de 2014, hoje ela recebe por volta de 1.000 visitas num dia bonito, de sol, e tem fila de mais de três horas (sem sombra!) para tirar uma foto.

A trilha é movimentada mesmo durante a semana, cheia de turistas estrangeiros. E isso porque está dentro do Parque Estadual da Pedra Branca (PEPB), o maior em área urbana do Brasil, com mais de 12 mil hectares. Lá há estrutura para comportar muitos visitantes, mas a grande maioria se concentra em poucos locais. "É um fenômeno que nos surpreendeu. Hoje essa caminhada é uma das principais do Rio de Janeiro. E a divulgação não foi feita por nós e sim pelas mídias sociais", explica Jorge Oliveira, agente de defesa ambiental do PEPB.

Segundo ele, a Pedra do Telégrafo requer mais salvamentos pelo Corpo de Bombeiros do que a Pedra da Gávea, muito mais complexa de ser percorrida. "A trilha é fácil. Aqui os acidentes acontecem pelas posturas que as pessoas têm pra tirar fotos", explica. Dependendo do ângulo, em cima da pedra, parece que você está diante de um abismo: um cenário perfeitamente "instagramável" (na realidade, o chão está a poucos metros abaixo da pedra).

"Não é algo que acontece só no Brasil: nessa ânsia de ter uma foto diferente, as pessoas chegam a morrer", lembra Jorge. Segundo ele, os trilheiros demoram de 10 a 15 minutos fazendo pose para a câmera, e isso às vezes acaba em conflitos com quem está esperando (e os funcionários do parque terminam apartando as rixas).

Assaltos

"O que pega nas trilhas do Rio é segurança. Há lugares em que um mês atrás não tava dando problemas, mas agora tá. O turista tem que se informar para não se meter em furada", avisa Roberto Schmidt, montanhista do CERJ e do Centro Excursionista Guanabara (CEG) desde os anos 1960. A Trilha do Morro dos Dois Irmãos, por exemplo, era um ponto legal para curtir a vista do Leblon e de Ipanema. A comunidade se apropriou do caminho do bairro do Vidigal até o cume do morro e organizou a parada. "Se não estiver com problemas, você pode subir numa boa", conta Roberto. Mas Jorge complementa que agora, no momento de apuração da matéria, têm rolado tiroteios na região.

Custodio Coimbra/Ag. O Globo
Da trilha que leva ao morro Dois Irmãos, no Vidigal, é possível avistar pontos famosos da cidade, como a Pedra da Gávea e o Cristo Redentor Imagem: Custodio Coimbra/Ag. O Globo

"A dinâmica no Rio é muito doida. Três meses atrás, era um lugar tranquilo. Agora não é mais", observa. O agente de defesa ambiental conta que onde o Comando de Policiamento Ambiental (CPAm) está atuando, as vias ficam seguras. O problema é não haver estrutura para garantir a presença do policiamento em todas as áreas. Então, de onde o CPAm está, os assaltos migram para outra trilha. "Fica aquela coisa de gato e rato."

Uma das vias com mais assaltos no ano passado, era a do Parque Lage para o Cristo Redentor, no Corcovado, chamariz pelo gigantesco fluxo de pessoas e por margear comunidades como a do Morro da Santa Marta. "As quadrilhas estão especializadas em assaltar grupos para conseguirem o maior lucro possível numa tacada só", alerta. Isso significa que aquele cuidado de não andar sozinho pode não ser suficiente para impedir as abordagens de ladrões.

Procurar clubes de montanhistas (organizações sem fins lucrativos) e a Femerj, Federação de Esportes de Montanha do Estado do Rio de Janeiro, é uma ótima maneira de se manter atualizado sobre quais áreas estão mais seguras para se fazer a caminhada. Essa pesquisa definitivamente precisa ser feita antes de se aventurar em qualquer caminho.

Cuidados

Além de ter informações quentes sobre os pontos mais seguros por onde caminhar, é fundamental ter alguns cuidados. Schmidt dá algumas dicas básicas, frutos de seus quase 50 anos de experiência como montanhista:

  • Seu tênis ou bota precisa ter solado com boa aspereza, boas agarras e ser confortável no pé (jamais vá com calçado novo na caminhada!);
  • Usar duas meias, uma mais grossa por cima para não forçar o pé e evitar a criação de bolhas. "Se começar a ter bolha, dançou";
  • Levar chapéu. "Nosso verão se chama inferno (risos)";
  • Esquece o shortinho fashion: dependendo da caminhada, precisa usar calça comprida de tactel para proteger as pernas;
  • Passar e levar repelente e protetor solar;
  • Levar, no mínimo, 1,5L de água;
  • Levar celular (e não perder ele por aí, por favor);
  • Levar barrinhas de cereais, frutas secas ou sanduíche;
  • Levar agasalho, para caso alguém se machuque e for preciso esperar o resgate até à noite (evitemos isso);
  • Levar lanterna, se for pequena;
  • E a mochila tem ser de no máximo 5 kg.

Sobre a cautela com as trilhas, quem dá a letra é o Corpo de Bombeiros:

  • Antes de começar, é muito importante saber aonde ir, como ir e com quem ir, ou seja, planejar a atividade e, de preferência, procurar um profissional para guiar o passeio;
  • Conhecer o lugar por meio de mapas e informações de amigos e moradores da região;
  • Para fazer caminhada em matas e florestas, não precisa ser um atleta, mas sim estar bem de saúde e respeitar suas limitações;
  • Faça um desenho do seu roteiro para não se perder no meio da mata;
  • Pesquise, com antecedência, todas as informações meteorológicas do dia: temperaturas máxima e mínima e previsão de chuva, para não ser surpreendido;
  • Deixe avisado na sua casa ou na casa de amigos por onde você vai caminhar, com quem você vai, qual o dia e hora previstos para o retorno e o número do seu celular;
  • Se você for iniciante, deve fazer caminhada em trilhas com terrenos menos abruptos, sem muitas subidas e descidas íngremes;
  • Não pense que por já ter feito uma determinada trilha você a conhece bem. Pode haver surpresas;
  • Pesquise como é o percurso, o grau de dificuldade e o tempo de duração. Evite começar uma caminhada longa à tarde, porque dentro da floresta escurece mais cedo do que nos cumes dos morros e você pode voltar na escuridão;
  • Nas descidas muito íngremes, é melhor descer de frente para o morro, se apoiando em árvores ou em raízes, olhando para ver onde pisa. Para evitar quedas nas subidas, preste atenção no pé que serve de apoio.

Para saber mais sobre caminhadas e escaladas, Roberto recomenda dois sites: da Companhia da Escalada e da Aguiperj. Agora, devidamente informados de como é o rolê no Rio, vamos às dicas de trilhas seguras e preparadas para te receber (mas sempre tem que checar antes, porque tudo pode mudar). As indicações são do montanhista Roberto Schmidt e do agente de defesa ambiental Jorge Oliveira.

TRILHAS FÁCEIS

Trilha do Morro da Urca

Getty Images
Imagem: Getty Images

Essa aqui é a mais visitada do estado: recebe por volta de 14 mil pessoas por mês e esse número chega a um pico de 24 mil nas férias, segundo o MoNa, Monumento Natural dos Morros do Pão de Açúcar e da Urca. A trilha estava bastante degradada, mas foi restaurada e readequada, processo concluído em 2016. O caminho tem corrimões, escadas de madeira, monitoramentos e também recebe manutenções de pequeno porte (como tirar o lixo e ver se tem algum equipamento quebrado). Desde então, com essas ações, o desgaste tem sido mínimo. Uma dica é evitar ir aos fins de semana, principalmente aos domingos, se não quiser ficar preso em uma procissão de pessoas.

O trajeto de 1,5 km em subida é rápido: 40 minutos para ir e voltar. Além disso, é fácil e não tem como se perder; ideal para iniciantes. Para completar, tem vista para a enseada de Botafogo e o Aterro do Flamengo. Só não pode (mesmo!) alimentar o mico-leão-dourado. Ele é bonitinho, mas é considerado uma praga. Ele não tem predador e se alimenta de animais nativos, como filhotes de pássaros, e isso tem causado um grande desequilíbrio ambiental.

Vai lá:
Praia Vermelha - fim da Avenida Pasteur, Urca. Acesso pela Pista Cláudio Coutinho (antigo Caminho do Bem-Te-Vi, no Monumento Natural dos Morros do Pão de Açúcar e da Urca)
Todos os dias, das 8h às 18h. Controle de acesso é feito pela ECEME, Escola de Comando e Estado-Maior do Exército.
Percurso de 40 minutos (ida e volta), sem contar o tempo de contemplação.
Grátis.
Telefone: (21) 98909-2057

Caminho da Pedra do Conde

Jeremias Freitas / Divulgação
Imagem: Jeremias Freitas / Divulgação

A Pedra do Conde faz parte do Circuito dos Picos do Parque Nacional da Tijuca e não é indicada para quem nunca fez trilha na vida. O caminho tem quase 2 km de extensão (ida e volta), com subidas médias, boa sinalização e mirantes para se avistar outros picos da floresta, como a Pedra da Gávea e a Pedra Bonita, o Pico da Tijuca e o Morro do Anhanguera, bem como parte do Centro e da Zona Norte da cidade.

Vai lá:
Parque Nacional da Tijuca (PNT) - Estr. da Cascatinha, 850, Alto da Boa Vista. Acesso pela Estrada Edson Passos, na Praça Afonso Vizeu (entrada principal do PNT), de carro até o estacionamento do Playground da Capela Mayrink.
Todos os dias, das 8h às 17h.
Percurso de 2 horas (ida e volta), com folga.
Grátis.
Telefone: (21) 2492-2250 / 2492-2253 / 3883-8800

TRILHAS MÉDIAS

Trilha do Bico do Papagaio

Jorge Oliveira / Divulgação
Imagem: Jorge Oliveira / Divulgação
 O Bico do Papagaio também está no Circuito dos Picos e é um dos trajetos da Transcarioca, maior trilha urbana do país, iniciativa do Mosaico Carioca de Áreas Protegidas. Seu cume, a 989 metros de altitude, parece mesmo o bico de um papagaio (por isso o nome) e é um dos picos mais frequentados do Parque Nacional da Tijuca. A vista de lá de cima é das mais fantásticas da cidade: praias da Barra e Recreio, com toda a baixada de Jacarepaguá ao fundo.

O caminho todo é bem marcado e tem aproximadamente 2 km a partir da Praça do Bom Retiro (estacionamento com guarda, que anota seu destino e seu telefone de contato). A trilha chega num colo (ponto entre dois morros) e tem dois destinos possíveis: o Bico do Papagaio e o Morro do Cocanha.

À direita você sobe para o Bico do Papagaio numa passagem bem íngreme, que a cada metro se torna mais exigente, com degraus e trepa pedras, cheios de raízes. Na parte final foi construída uma escada de madeira que garante segurança num trecho perigoso. E de lá de cima dá para apreciar a vista do vale do Alto da Tijuca e do Centro da cidade.

Morro do Cocanha

Jorge Oliveira / Divulgação
Imagem: Jorge Oliveira / Divulgação

A partir daquele colo, de frente para a placa à esquerda, a trilha (hoje refeita e evitando trechos muito íngremes) te leva ao Morro do Cocanha, a uma distância de aproximadamente 1,8 km. "Comparado ao Pico do Papagaio, é um caminho mais ameno, com poucos aclives. A única dificuldade é no final, onde há blocos de rocha que devem ser galgados com cuidado, pois podem ser escorregadios", conta Schmidt. Mas vale a pena: o pico tem “janelas” naturais para observar as áreas da Barra da Tijuca e Jacarepaguá.

Vai lá:
Parque Nacional da Tijuca - Estrada da Cascatinha, 850, Alto da Boa Vista. Acesso pela Estrada Edson Passos, na Praça Afonso Vizeu (entrada principal do parque). Acesso de carro até o estacionamento da Praça do Bom Retiro (Estrada do Imperador e Estrada dos Picos). Em caso de dúvida perguntar aos guardas do parque.
Todos os dias, das 8h às 17h (até 18h no horário de verão). Só é permitido iniciar a trilha até as 14h, para dar tempo de voltar antes do fechamento do parque.
Bico do Papagaio: percurso de 4 horas (ida e volta) com folga.
Morro do Cocanha: percurso de 3 horas e meia (ida e volta), com folga, sem contar o tempo para curtir no cume.
Grátis.
Telefone: (21) 2492-2250 / 2492-2253 / 3883-8800

Trilha do Jequitibá/Cachoeira do Engenho

Jorge Oliveira / Divulgação
Imagem: Jorge Oliveira / Divulgação

"Parece que você está no interior de Minas Gerais", sugere Oliveira. A trilha é popularmente conhecida como Sertão Carioca, porque você encontra pessoas dentro do parque que vivem do cultivo de hortaliças nos morros, uma característica bem rural, explica. O caminho para se chegar à Cachoeira do Engenho passa por uma grande árvore centenária, o jequitibá de mais de 300 anos, e vai até o Rio da Prata, no bairro de Campo Grande. Nessa parte baixa da trilha tem uma feira orgânica, com produtos de cultura local, e dá para alugar uma casa para estender o passeio.

Vai lá:
Parque Estadual da Pedra Branca - Núcleo Pau da Fome, final da Estrada do Pau da Fome, Jacarepaguá.
Terça a domingo, das 8h às 17h. Entrada na trilha até as 11h.
Percurso de 5 horas (ida e volta).
Grátis.
Telefone: (21) 3347-1786 ou 2332-6608

TRILHA DIFÍCIL

Trilha do Pico da Pedra Branca

Jorge Oliveira / Divulgação
Imagem: Jorge Oliveira / Divulgação

"Essa é uma caminhada para quem tá envolvido com a natureza. Pouca gente sabe que o Pico da Pedra Branca é o ponto culminante da cidade (com 1.025 metros de altitude) e que de lá você tem vista, mas ela é limitada pela vegetação", avisa Oliveira. Uma curiosidade: a rocha arredondada no cume, de cerca de 3 metros de altura, torna o ponto poucos metros mais alto do que o Pico da Tijuca.

De cima da pedra dá para ver a noroeste o bairro de Campo Grande, ao norte o Maciço de Gericinó-Mendanha e também parte da Baixada Fluminense. Olhando para o sul, é visível a área desde o bairro de Vargem Grande, passando por parte do Recreio dos Bandeirantes até a Restinga da Marambaia.

Se, por um lado, para ganhar likes nas fotos no Instagram essa trilha não é ideal, por outro é perfeita para atravessar um dos mais ricos e bem preservados fragmentos de Mata Atlântica do município. No caminho você encontra diversas espécies endêmicas de flora e fauna, algumas ameaçadas de extinção. "No pico tem um sapinho que estudamos aqui, o pingo de ouro. Só há registro dele acima de mil metros e ele é um bioindicador de área conservada. Quem tá preocupado com o mirante não vai ver essa beleza", diz o agente de defesa ambiental.

Vai lá:
Parque Estadual da Pedra Branca - Núcleo Pau da Fome, final da Estrada do Pau da Fome, Jacarepaguá.
Terça a domingo, das 8h às 17h. Entrada na trilha até as 11h.
Percurso de 6 horas (ida e volta), 4h pra ir e 2h pra voltar.
Grátis.
Telefone: (21) 3347-1786 ou 2332-6608

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