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Rolês para lésbicas negras e da periferia ganham força em São Paulo

Divulgação
A iniciativa Sarau das Pretas coloca as mulheres contando as próprias histórias Imagem: Divulgação

Bia Cruz

Colaboração para o Urban Taste, em São Paulo

29/11/2018 04h00

A noite LGBT em São Paulo é, em teoria, um espaço livre de discriminação, onde as pessoas podem ser elas mesmas, sem medo de serem tratadas de maneira diferente ou sofrerem qualquer tipo de violência. Mas, às vezes, não costuma ser assim para quem é considerado fora dos padrões estéticos. Ou pelo menos não era, pois agora estão ganhando força as festas pensadas e voltadas para as lésbicas negras, gordas e que moram em áreas periféricas da cidade.

Obviamente essa não é uma necessidade nova. A doutora em Comunicação Social e professora da USP Rosane Borges lembra que, por muito tempo, foram criminalizadas ou taxadas de "marginais e vagabundas" manifestações culturais e festas negras, como o samba no Rio de Janeiro, no início do século 20, e o reggae no Maranhão, no início do século 21. A relação entre mulheres negras e as festas no Brasil remonta aos tempos da escravidão, quando as escravas se reuniam para celebrar suas divindades e amenizar as crueldades do trabalho forçado. "Os negros não separavam corpo e razão de forma eurocêntrica e cartesiana. Assim, o corpo é uma maneira ancestral de demonstrar uma emoção", explica Rosane.

Segundo a professora, existem dois motores para a atual potência da demanda por festas para mulheres negras e lésbicas. A primeira é a luta pela representatividade, e a segunda é o aumento do poder de consumo desse público. "Existe a luta das pessoas LGBTs e do movimento negro por reconhecimento."

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O mesmo vale para as meninas gordas e o atual questionamento dos padrões estéticos vigentes. Se o sistema já começou a se movimentar para incluir modelos plus size no mercado da moda e da publicidade, e a representatividade de atrizes e Youtubers gordas aumentou, por que as festas não acompanhariam esse movimento?

Giovana Xavier, doutora em Educação e professora da UFRJ, faz parte da #OficinaProibidona, um espaço que dá aulas de funk para mulheres cariocas. A partir do seu trabalho como pesquisadora e de sua vivência no funk, Xavier entende que mesmo o ambiente de diversão pode ser opressor para a mulher, porque as expectativas de gênero, etnia e estética continuam existindo nessas situações.

Xavier destaca como o julgamento da sociedade, em especial dos homens, influencia como as mulheres se vestem, por exemplo. "Estão surgindo várias festas em que é possível ser mulher em um sentido pleno, onde a diversão é elevada à última potência. Estar em lugares onde possamos nos jogar e sermos nós mesmas é muito importante."

Rafaela Piccin, co-fundadora da Casa Vulva, uma residência de arte, trocas e empoderamento feminino, ressalta a importância de existirem recintos que possam acolher as mulheres em todas sua complexidade. "É difícil estar isenta do machismo, mas é necessário o movimento das mulheres em busca de seus interesses para conseguir um lugar", diz.

Uma vez delimitados esses redutos seguros, chegar até eles pode ser outro desafio para quem mora longe dos centros urbanos. "Mesmo dentro de espaços que propõem uma mudança na sociedade, a mulher e a mulher negra, em especial, não eram acolhidas nas suas particularidades", explica Elizandra Souza, integrante do Sarau das Pretas, iniciativa voltada para mulheres periféricas. A ideia de fundar o grupo veio justamente para contemplar quem mora afastada dos principais pontos de cultura da capital.

Então, com vistas para toda essa diversidade de mulheres lésbicas, a nova onda de festas e ambientes para atender esses nichos têm se multiplicado. São iniciativas criadas por mulheres negras, mães, trabalhadoras e que moram nas periferias, pensando em atender a mulheres como elas mesmas.

Dessa forma, as meninas que só querem se divertir podem curtir a noite sem se preocupar com episódios constrangedores, violentos ou excludentes por conta da sua aparência ou classe social. A sensação de poder rebolar, fazer aquele quadradinho perfeito longe do escrutínio e do julgamento de um olhar masculino ou apenas se sentir bonita e paquerar à vontade é, de fato, libertadora.

Gostou da ideia de ser uma mina livre por uma noite toda? Então bora curtir a lista abaixo. Vale lembrar que em algum desses espaços a presença dos homens é permitida, mas o respeito continua sendo fundamental. Aqui, a festa é sempre das minas!

Casa de Aruanda

Wellington José da Silva / Divulgação
Imagem: Wellington José da Silva / Divulgação
Aruanda é a representação do paraíso nas religiões de matriz africana, e a Casa de Aruanda tenta criar um ambiente acolhedor, onde as mulheres podem circular e curtir o momento sem grandes preocupações. Aqui, assim como nas próprias religiões afro-brasileiras, as mulheres têm um papel primordial. Elas são a maioria do público (embora os homens também sejam bem-vindos) e estão presentes nas performances artísticas e musicais.

Vai lá:
Rua João Guimarães Rosa, 241, Praça Roosevelt, São Paulo.
Terça a domingo, das 15h às 5h.
Em alguns eventos é cobrada a entrada simbólica de R$ 5.
Mais informações no Facebook.


Festa Fancha

Isabela Catao / Divulgação
Imagem: Isabela Catao / Divulgação
Aqui só entra mina. A Fancha é uma festa que nasceu no Rio de Janeiro, especialmente para acolher mulheres lésbicas e bissexuais que não se sentiam à vontade com a presença dos homens nas festas. Depois, a Fancha veio para São Paulo e se dividiu entre as duas cidades. Neste ano, não houve edições no Rio. A festa estava programada para o fim de semana em que a vereadora Marielle Franco foi assassinada, e foi cancelada em respeito à política e à sua família. No entanto, as organizadoras já planejam a volta para a Cidade Maravilhosa. Existe também o Projeto Fancha. "O objetivo é reunir mulheres para falar sobre diversos temas [que as impactam diretamente], como visibilidade lésbica, prevenção ao suicídio e formas de terapia alternativa", explica a criadora da Fancha, Isabela Catão.

Vai lá:
Morfeus Club - Rua Ana Cintra, 110, Santa Cecília, São Paulo.
De R$15 a R$30.
Mais informações no Facebook.

Sarau das Pretas

A iniciativa de poetisas negras das periferias de São Paulo coloca a mulher no centro da literatura, como criatura — contando histórias de mulheres relevantes para a comunidade — e criadora — elas próprias contando as suas histórias e fugindo da idealização do olhar masculino, buscando acolher e reconhecer mulheres da cena dos saraus. Além da palavra, as cinco integrantes também utilizam o corpo e a música como instrumentos em suas apresentações, fazendo performances e atuações lúdicas, que na maioria das vezes retratam a realidade do país.

Vai lá:
Sarau itinerante em São Paulo.
Todas as atividades são gratuitas.
Programação na página do Facebook.

Casa Vulva

Divulgação
Imagem: Divulgação
A casa feminista (já fica claro pelo nome, né?) promove diversas apresentações culturais, desde shows, exposições, debates, sessões de cinema e até mesmo cursos e workshops. A programação é aberta para homens, mas o espaço foi pensado como um local de acolhida para elas. O ponto alto da Casa Vulva são os shows; com uma pegada mais intimista, público e artista ficam na mesma altura já que não há palco.

Vai lá:
Casa Vulva - Rua Coriolano, 345, Vila Romana, São Paulo.
Não há um horário de funcionamento fixo.
De R$ 10 a R$ 25.
Programação na página do Facebook.

Sarrada no Brejo

Criada pela Coletiva Luana Barbosa, formada apenas por mulheres negras, periféricas e LGBTs, a Sarrada no Brejo é uma festa que tenta abrigar e promover diversão justamente para esse público tão diverso. A Sarrada é a única festa em São Paulo com um espaço de creche, para as mães também poderem se divertir. Além disso, a festa costuma realizar edições especiais em chácaras e lugares com piscinas. Para que as mulheres que frequentam a festa se sintam ainda mais à vontade com seu próprio corpo, as organizadoras da Sarrada também fazem oficinas de dança e rebolado.

Vai lá:
Festa itinerante em São Paulo.
R$ 15.
Mais informações no Facebook.

Piranha

A festa tem uma pegada mais brasileira, assim como o nome é inspirado na "Piranha" de Alípio Martins, que faz a gente completar mentalmente: "é um peixe voraz". O lugar abriga homens e mulheres, e assédio não é tolerado. A Piranha acontece a cada dois meses, uma pausa suficiente para deixar aquela saudade.

Vai lá:
Rua Mauá, 512, Centro, São Paulo.
R$ 20 e R$ 30.
Programação na página do Facebook.

Presidenta

Bar de referências feministas, o Presidenta fica na badalada Rua Augusta. Além da típica programação boêmia de bar e música, lá rolam debates e apresentação de filmes, que estimulam uma presença crítica no local. O Presidenta também promove eventos frequentes como a festa Cafuá, com uma pegada brasileira, que acontece todas as terças-feiras. A co-proprietária Marcia Chiochetti pensou no bar, junto com sua filha, como forma de combater machismos e outras opressões. Por isso, fazem eventos e debates, como para abordar a temática transexual, por exemplo. Homens podem entrar.

Vai lá:
Rua Augusta, 335, Bela Vista, São Paulo.
Terça a domingo, das 19h às 5h.
R$ 5 a R$ 20.
Mais informações no Facebook.

Sambadas

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Imagem: Divulgação
O grupo de samba composto por seis mulheres lésbicas e bissexuais, negras e brancas, se reúne quinzenalmente para exaltar a ancestralidade e incentivar a quebra dos padrões impostos aos corpos das mulheres. O ponto de encontro é um bar do Largo da Batata, na Zona Oeste de São Paulo, no evento Sambadas na Batata, para resgatar a cultura popular que ocupava aquele reduto. Além disso, o grupo também realiza apresentações em outros espaços culturais da cidade.

Vai lá:
Rua Fernão Dias, 684, Pinheiros, São Paulo
A entrada é gratuita, e as artistas deixam o chapéu para que o público faça contribuições voluntárias.
Mais informações no Facebook.

Helipa LGBT

Se o teu hobby é sentar, o lugar certo é o Helipa LGBT, uma festa de funk que segue o fluxo que inundou as periferias de São Paulo. A ideia veio para quebrar o paradigma de que uma festa de funk é programa de hétero. Outro ponto importante é fortalecer e validar a existência e cultura LGBT longe das regiões centrais da cidade, então a balada rola no bairro de Heliópolis.

Vai lá:
Festa itinerante em São Paulo.
R$ 15, e as festas que acontecem na rua são gratuitas.
Programação na página do Facebook.

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