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PANC: dicas para cultivar Plantas Alimentícias Não Convencionais em casa

Divulgação/ Instituto Plantarum
A folha da batata-doce é considerada uma PANC (Planta Alimentícia Não Convencional) Imagem: Divulgação/ Instituto Plantarum

Fernanda Carpegiani

Colaboração para o Urban Taste

2019-03-27T04:00:00

27/03/2019 04h00

Sabe aquele mato que cresce nas frestas da calçada, invade os vasos de plantas e se espalha por canteiros no jardim? Algumas dessas plantas são comestíveis e têm um alto valor nutritivo. Melhor do que isso é só o fato de serem muito fáceis de cultivar em casa. São as PANC, Plantas Alimentícias Não Convencionais, que apesar de ainda serem pouco conhecidas, já fazem parte do cardápio de alguns restaurantes em São Paulo.

O criador do termo é o biólogo Valdely Kinupp, pesquisador do assunto há mais de 10 anos. Em 2008, ele escreveu sua tese sobre esse tipo de planta e virou referência internacional. "O Brasil está na vanguarda da pesquisa e da divulgação dessas espécies", conta Kinupp, que é coautor do livro Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC) no Brasil, junto com Harri Lorenzi (Editora Plantarum, 2014). Ele conversou com o Urban Taste por telefone enquanto comia acerolas verdes do pé em seu sítio.

Para o especialista, cultivar esse tipo de planta tem vantagens individuais, coletivas e ambientais. "É uma fonte de alimento fresco e rico em nutrientes que está sempre à disposição. Isso também traz uma economia pessoal, já que a maioria tem desenvolvimento contínuo, e também coletiva, se o plantio for feito em áreas comuns ou públicas. O cultivo ajuda na valorização e no conhecimento da biodiversidade brasileira".

Segundo Kinupp, esse tipo de planta é uma ótima pedida para quem quer ter uma horta em apartamento ou casa. "Em geral elas são mais rústicas e resilientes do que ervas aromáticas e alface, por exemplo, e podem ser plantadas em pequenas áreas. Muitas se propagam por estaca, ou seja, você não precisa ficar comprando muda e semente e pode ter sempre em casa", explica. Para fazer a propagação por estaca é só cortar um galho da planta e colocá-lo na água ou direto na terra. Assim, esse galho cria raízes e dá origem à outra planta igual.

Quem mora em prédio também pode conversar com outros condôminos e propor uma horta comunitária de PANC. Isso porque na terra e em espaços maiores é possível cultivar plantas maiores, que podem ser consumidas por todos os moradores. "A bananeira é considerada uma Planta Alimentícia Não Convencional. Porque além de comer a banana madura é possível consumir a casca seca na farofa, a banana verde em forma de chips, amassada e frita, o coração da bananeira, a sua flor e também o palmito que fica dentro do caule do cacho".

Como fazer um jardim de PANC

A primeira dica do biólogo é fazer experiências com os espaços e as espécies que estão acessíveis para você. Viu uma Planta Alimentícia Não Convencional na rua ou na casa de um amigo? Pegue uma estaca ou semente e coloque em um vaso. Vá testando plantios diferentes de acordo com as necessidades de cada uma e os lugares disponíveis na sua casa. Quanto maior for o vaso ou recipiente, por exemplo, mais a planta vai crescer e se desenvolver. Da mesma forma, você pode ter um vaso menor e, consequentemente, uma planta menor.

Grande parte das PANC tem crescimento espontâneo. É o que explica a nutricionista Neide Rigo, que tem diversas espécies deste tipo no jardim de sua casa, em São Paulo. "Se você não fizer nada no seu jardim, naturalmente vão surgir algumas PANC. Muitas invadem o quintal e não requerem muitos cuidados. Nem água, nem fertilizantes, nem defensivos. Isso dá independência para o cultivo". O assunto é tema de cursos e palestras da especialista e também de seu blog, o Come-se.

Sua principal fonte de espécies é a rua. Por onde passa, ela vai pegando mudas e estacas para replantar e diz que essa é uma boa tática para começar a sua horta. "Prefira plantas que crescem em lugares mais altos, porque não têm contato com cocô de animais e sujeira do chão. Essas não são boas para comer cruas, então é preciso cozinhá-las para evitar contaminação. Você também pode esperar a segunda geração nascer para comer, assim ela vai estar limpa", recomenda.

Outro cuidado importante (que vale para qualquer plantio, inclusive) é cobrir o solo com matéria vegetal. É só imitar a natureza e espalhar folhas secas, cascas de árvore ou serragem em volta da planta. Isso ajuda a proteger o solo do sol e da chuva e mantém a terra na temperatura adequada.

PANC para ter em casa

O livro do biólogo Valdely Kinupp é a principal referência quando o assunto é PANC. São mais de 700 páginas com informações sobre 351 espécies, com foto, nome científico, características, cuidados de cultivo e até receitas. Confira quatro tipos interessantes para plantar:

Taioba

Instituto PLantarum / Divulgação
Imagem: Instituto PLantarum / Divulgação
Nativa de Minas Gerais, essa planta é uma das mais famosas da família. Costuma ter de 50 a 90 cm de altura e as folhas podem chegar a 35 cm de comprimento. Quanto maior for o espaço, mais ela vai crescer e se desenvolver. Gosta de sombra, bastante água e calor. O plantio é feito a partir de mudas e pode acontecer em vasos ou jardineiras. Todas as partes da taioba podem ser consumidas, mas não cruas. É preciso cozinhar, refogar ou fritar para eliminar os ráfides de oxalato de cálcio, que são como "micro-agulhas" presentes na planta. As folhas também devem ser colhidas jovens.

Bertalha-coração

Instituto Plantarum / Divulgação
Imagem: Instituto Plantarum / Divulgação
Tem rede de proteção na janela do apartamento? Plante nela! "Assim como o pepino vermelho, o pepino doce e o mini pepino silvestre, a bertalha-coração é uma trepadeira ótima para fazer uma cortina verde. Promove o controle térmico e funciona também como paisagismo", diz o biólogo Valdely Kinupp. É só colocar um vaso ao lado da tela e conduzir os ramos para que cresçam se enrolando na rede. As folhas costumam ter de 5 a 13 cm e a planta não exige nenhum cuidado muito específico além de água sem exageros. É original do Sul, Sudeste e Nordeste e sua propagação é por tubérculos e estacas. Tanto as folhas quanto os tubérculos podem ser consumidos.

Major-gomes

Instituto Plantarum / Divulgação
Imagem: Instituto Plantarum / Divulgação
Muito comum e fácil de se reconhecer, essa planta existe praticamente no Brasil inteiro. Seu crescimento é espontâneo e a propagação é feita por sementes, estacas e divisão da parte subterrânea, chamada de touceira ou órgão subterrâneo de reserva. Costuma ter de 30 a 60 cm de altura, com folhas de 5 a 11 cm de comprimento. Não requer cuidados específicos e tolera bem a falta de água. Suas folhas podem ser consumidas cruas, cozidas, refogadas ou ensopadas. As sementes também podem ser comidas em saladas ou usadas para empanar alimentos, da mesma forma que a papoula.

Batata-doce
Sim, a batata-doce é considerada uma PANC. Nós comemos as raízes, que são as batatas, mas as folhas, flores e até cabos (os pecíolos) também são comestíveis (e pouco consumidas em geral). Nativa na América Tropical, mas não no Brasil, pode ser cultivada em vasos ou jardineiras pendentes e propagada por meio de ramos ou da própria batata. Ou seja, dá para deixar o alimento brotar e depois plantar. Assim como a maioria das plantas deste tipo, ela não requer muitos cuidados.

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