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Virada Cultural 2019 devolve ruas do Centro para todos os paulistanos

Marcelo Justo/UOL
O rapper Criolo se apresenta no Anhangabaú durante a Virada Cultural Imagem: Marcelo Justo/UOL

Jonas Carvalho

Colaboração para o Urban Taste, em São Paulo

2019-05-19T22:51:51

19/05/2019 22h51

Este ano marca a 15ª edição da Virada Cultural, que desde 2005 sobrevive em meio a diferentes prefeitos, mudanças de data, descentralizações, shows emblemáticos, frio, arrastões, mortes, protestos e vários outros pontos positivos e problemáticos. A edição de 2019 tinha cara de "volta às origens", com mais atrações no Centro da cidade, mas tentando não se esquecer das áreas periféricas.

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Em 2019, a promessa da gestão Bruno Covas para o evento municipal, que começou às 18h de sábado (18), e se esticou até o mesmo horário do dia seguinte, foi oferecer 1.200 atrações em 250 pontos diferentes da capital. Foram 35 palcos (27 no Centro e oito nos bairros). E, pela primeira vez, todas as 32 subprefeituras de São Paulo foram contempladas com atividades. CEUs, SESCs, vários locais na periferia e até a Avenida Paulista - fechada durante as 24 horas da Virada, depois de um cabo de guerra na Justiça - completaram o bonde cultural.

Segundo a prefeitura, 5 milhões de pessoas aproveitaram a Virada Cultural 2019. E uma pesquisa da SPTuris mostra que a nota que o público deu pro evento foi de 8,6, melhorando o 7,9 dado pela galera na edição passada.

Apesar dos problemas que também contaremos aqui, a sensação é de que o evento deste ano devolveu as ruas para os paulistanos. E não importa gênero, sexualidade, cor, idade ou bairro onde mora: na Virada Cultural, todo mundo se sentiu um pouco mais dono da cidade de São Paulo.

Volta às origens e pertencimento

As três últimas edições da Virada Cultural tiveram alterações importantes em seu funcionamento (veja mais no final do texto), principalmente em relação à descentralização: o Centro ficou vazio, com menos shows de grandes artistas, e áreas mais afastadas receberam alguns medalhões da música. Na visão do estudante de Direito Lucas Souza, de 24 anos, isso não funcionou muito.

Ele gosta da concentração de grandes shows, porque assim o público pode ir em atrações diferentes e aproveitar mais, já que se locomover no Centro é mais fácil. Porém, Lucas também acredita ser muito importante levar a Virada para as periferias. "Não podemos centralizar o evento para não delimitar a cultura para ninguém".

Outra coisa que chamou sua atenção foi a pluralidade das atrações. "Seja aqui no Centro, seja nas periferias, teve muita diversidade e achei isso bem significativo nesse momento do país. Acho que esse ano melhorou muito em relação aos outros. Temos palcos até exclusivos para música gospel e sertaneja, o que de certa forma inclui mais gente".

Entre várias atrações, o estudante assistiu ao show PRETAS, que levou As Bahias, Drik Barbosa, Jup do Bairro & Linn da Quebrada e Luedji Luna ao palco do Theatro Municipal. Foi a verdadeira reintegração de posse do local com mulheres negras, travestis e periféricas colocando abaixo a casa de espetáculos.

Nelson Antoine/UOL
Imagem: Nelson Antoine/UOL

De uma drag para outra

Pabllo Vittar foi o motivo para a também drag queen Nicolly sair de Osasco, na Grande São Paulo, e ir para a República da Diversidade, palco na Praça da República que recebeu a cantora às 4 da manhã do domingo. "Eu vim bem tranquila para cá. Acho o Centro diversificado e está sendo ótimo estar na República, vendo Pabllo Vittar, e poder ver outras atrações. É a primeira vez que estou vindo na Virada Cultural e estou achando maravilhoso", disse.

Contar com um palco simbólico como aquele foi significativo. "Acho importante ter esse palco, porque São Paulo já é diversificada. E aqui podemos ter muita gente gay, hetero, travesti e muitas outras pessoas convivendo, sem brigas. Hoje estou me sentindo bem segura. Pretendo continuar vendo a Virada se eu aguentar. Quero ver o show da Preta Gil", conta.

Diversidade também é uma palavra-chave na opinião da jornalista Mariana Paulino, 26 anos, que vem às Viradas desde 2013. "De lá pra cá mudou bastante coisa. Só da Virada ir mais pra periferia já ficou melhor, assim conseguimos diversificar as atrações também. Gostei muito do show do Racionais em 2013, mas aquela Virada foi bem tensa, teve muito arrastão e foi meio traumático. Nas que vieram depois, foi mais tranquilo", conta.

Moradora do Jabaquara, Zona Sul, ela prefere vir pro Centro, porque é onde se concentram mais atrações e ela consegue encontrar mais pessoas. "Na próxima quero conhecer outros lugares. Acho legal a Virada estar também na periferia, porque nem todo mundo vem para cá. Ter shows nos centros de cultura dos bairros também é importante".

No centro e fora dele

O casal Marcos Vinicius, 61 anos, e Marta Alves, 59 anos, também mora para os lados do Jabaquara e prefere colar no Centro para assistir a mais shows sem andar muito, além de aproveitar a facilidade das várias estações de Metrô da região. "Acho que esse ano tem bastante coisa espalhada e isso é bom. Mas onde eu moro não tem atrações que eu gosto", afirma Marta. "Tem que levar a programação mais ainda para os bairros, para quem não quer vir pra cá. Devia ter até condução de graça, porque tem gente que não vem porque não tem dinheiro".

Os dois começaram a Virada Cultural pelo show da Nação Zumbi e queriam assistir também a Caetano Veloso e Criolo, no Anhangabaú. "Tava vendo o show do Nação do lado de um jovem e falei pra ele: 'meu, essas músicas aí são de 1996!'. Ele me olhou e devolveu: 'nossa, é o ano que eu nasci'", contou Marcos, bem-humorado e um pouco alterado pela cerveja. "Faz uns 4 anos que vamos em todas as Viradas. Se eu tiver vivo, venho nas próximas também!".

Marcelo Justo/UOL
Imagem: Marcelo Justo/UOL

Outro pessoal que estava no Centro era Flávio Carvalho, 30 anos, com a esposa Raquel Veloso, 25, e os três filhos (duas meninas de 6 e 7 anos e um menino de 1 ano, que estava bem feliz durante o show da Anitta no Vale do Anhangabaú). "A gente já foi em várias Viradas, menos no ano passado. Mesmo antes de ter as crianças, eu e minha mulher sempre participamos", conta Flávio. Ele e a família moram na região e preferem curtir as atrações por ali, já que fica tudo bem próximo e eles não precisam se deslocar muito.

B.O.s

Dá para se sentir seguro com três crianças no meio da Virada Cultural? "A gente sempre se sentiu seguro quando veio, mas a segurança às vezes é uma questão, principalmente em relação a pessoas que bebem demais e se descuidam. Em outros anos já vimos muito furto de celular", diz Flávio.

A própria reportagem foi "abordada" enquanto andava pelo meio do público na Praça do Patriarca, mas a mão do ladrão não achou nada no bolso. A doleira salvou, mas nem todo mundo teve essa sorte. Momentos depois, um rapaz corria pelo Vale do Anhangabaú, com um celular na mão e sob gritos de "pega ladrão". Depois da segunda rasteira, foi ao chão e depois imobilizado por guardas civis metropolitanos, enquanto alguns grupos comemoravam o desfecho. "Vi uns três furtos aqui no show do Caetano", disse Lucas Souza.

A segurança foi reforçada em relação ao ano passado, segundo a prefeitura. O efetivo de 11 mil policiais militares e 2.500 agentes da Guarda Civil Metropolitana circulou pela região central com relativa frequência, de moto, a cavalo, em viaturas ou mesmo a pé. Porém, em alguns espaços, não aparecia nem um único agente de segurança, como em trechos da Rua Líbero Badaró, da Rua da Quitanda e em determinados horários no Vale do Anhangabaú. A gestão municipal disse que foram registradas "dez ocorrências de furto de celular na região central".

De 2005 pra cá

A primeira edição da Virada Cultural foi em novembro de 2005 com 24 horas que "abalaram São Paulo". O prefeito era José Serra, e a inspiração veio das "Noites Brancas", que acontecem em locais como Paris, Madri e Roma. O foco é na ocupação do Centro, inclusive na madrugada, horário em que essa parte da cidade costuma "morrer". Apesar de mais tímida do que as edições seguintes, o evento foi "sucesso de público" de acordo com a gestão do tucano (que não disse quanta gente foi).

Dois anos depois, um dos pontos marcantes da atração (já ocorrendo em maio) foi a confusão entre a Polícia Militar e alguns fãs no show dos Racionais MC's na Praça da Sé. Rolou tiro, porrada e bomba, além de um gelo no rap nas edições seguintes.

Em 2009, a Virada bateu o recorde de 4 milhões de espectadores, segundo a organização do evento, que recebeu várias reclamações sobre falta de banheiros químicos, mau cheiro, transporte público insuficiente e falta de policiamento. Apesar disso, o prefeito da época, Gilberto Kassab (então no DEM), se disse feliz com o resultado.

Os Racionais voltaram com força total à programação em 2013, com direito a um show memorável na Estação Júlio Prestes. Entre as mais de 100 mil pessoas, estava o então prefeito Fernando Haddad (PT). Mas a atração daquele ano também foi marcada negativamente: duas pessoas morreram e houve vários relatos de arrastões, brigas e correria. A PM e a prefeitura reconheceram o recorde de violência. Nem o atual vereador Eduardo Suplicy escapou, já que passaram a mão em sua carteira depois do show da Daniela Mercury.

Marcelo Justo/UOL
Imagem: Marcelo Justo/UOL

A Virada Cultural de 2019 teve 1.200 atrações em 250 pontos diferentes, com maior concentração no Centro, mas também presentes na periferia. Foi frequentada por 5 milhões de pessoas, dos mais diferentes perfis que compõem os habitantes da cidade. Teve palco gospel, palco rock e palco da diversidade, entre muitos outros. O mesmo local recebeu Criolo, Anitta e Caetano Veloso.

Olhando para as 14 edições e para esta, qual é o saldo? Lucas Souza ajuda a responder: "antes, a ideia era humanizar o Centro, ocupar e democratizar as ruas. Fazê-las pertencerem às pessoas. Em 2017 e 2018 isso mudou. Acho que a Virada deu uma caída [naqueles anos] por tentar romper essa ideia [inicial]. Nesse ano, me causou surpresa a gente voltar a sentir que a rua é nossa".

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