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Casa Vilanova Artigas reúne café, cultura, coworking e modernismo em SP

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Imagem: Reprodução

Brunella Nunes

Colaboração para o Urban Taste, em São Paulo

2019-06-25T16:38:53

25/06/2019 16h38

Foi em 1949 que o arquiteto João Batista Vilanova Artigas, conhecido apenas pelos dois últimos sobrenomes, ergueu o que seria uma das obras modernistas mais importantes de São Paulo e do Brasil. Hoje chamado Instituto Casa Vilanova Artigas, o convidativo imóvel no bairro Campo Belo se molda como centro cultural, café e coworking aberto ao público.

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As paredes alaranjadas forradas de memórias e sorrisos nos dão boas vindas ao que foi o aconchego da família Artigas por mais de seis décadas. As fotografias em preto e branco revelam a formação de um lar, o cotidiano, as gerações avançando e os velhos amigos. Entre eles a arquiteta Lina Bo Bardi, que conta em uma carta, exposta na parede, sobre sua visita à casa, e o renomado paisagista Roberto Burle Marx, responsável pela concepção paisagística original do jardim.

Antes o acesso ao local era esporádico, acontecia em ocasiões como a Jornada do Patrimônio Histórico, por exemplo. Mas ele sempre foi um ponto de encontro, e o novo projeto segue essa proposta. "Não teria o menor sentido ocupar a casa e não permitir que as pessoas pudessem vivenciar esse espaço. Retomar essa vocação agregadora foi natural para mim", conta a arquiteta Talita de Nardo, responsável pela nova empreitada, que contou com o apoio da família Artigas.

Moradora do bairro, apaixonada pela residência e ex-aluna de Julio Artigas, filho primogênito e também arquiteto, foi Talita que o convenceu a se mudar para o anexo. A chamada Casinha havia sido a primeira moradia de João, em meados de 1942. Depois, se tornou ponto para militância e, a partir do nascimento dos netos, funcionava como oficina de brinquedos.

Hoje o instituto tem por objetivo preservar o patrimônio, resgatar a memória e contar um pouco da trajetória da arquitetura paulista baseada em três pilares: viver, trabalhar e compartilhar. Este último simboliza não apenas o compartilhamento de espaços, mas de conhecimento.

Por isso, inclui um programa educativo para melhorar as cidades a partir dos cidadãos e valorizar a importância da arquitetura, da preservação do patrimônio e da educação por meio da arte, do design e do diálogo. Segundo a gestora, as atividades lúdicas, oficinas e experiências desenvolvidas para públicos diversos, do infantil ao adulto, são preparados por arte educadores que passaram por grandes museus como o MASP, o MAC e o parisiense Louvre.

"Acreditamos na força da troca, do diálogo e das discussões entre a sociedade. Precisamos retomar nosso papel na formação de pessoas mais engajadas culturalmente, já que vivemos num mundo de informações rápidas e rasteiras", ressalta.

Casa de militância e convivência

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Visível para quem passa pela calçada, a construção não tem medo de se expor e segue as premissas de seu criador. Artigas, que repassou seus saberes e valores aos filhos, não acreditava na ilusão de ter privacidade. Assim, mais do que blocos de concreto, é um espaço ideológico.

O arquiteto era avesso a barreiras e à ideia de afastar pessoas, o que numa grande metrópole parece loucura. Sem querer, traz à tona o questionamento: quem, afinal, é o louco nessa história toda? Para Julio Artigas, o último morador do local, é "uma casa que chama para a convivência entre os homens". A irmã, Rosa, completa o raciocínio e afirma que o pai optou por não hierarquizar os espaços.

De fato, na antiga residência tudo se integra de alguma forma, seja pela disposição dos cômodos, pelos espaços abertos ou pelas grandes divisórias de vidro que permitem a entrada de luz natural e a integração dos ambientes.

Não se sabe muito bem quando se está dentro ou fora da sala, mas o importante ali é realmente estar. Sentir o peso e a leveza do legado deixado por Vilanova Artigas, um homem de baixa estatura, que "parecia gigante em sua postura", nas palavras da neta Manuela Artigas. O lugar permanece até os dias atuais um ponto fora da curva.

Pilares azuis são pequenos detalhes, mas saltam aos olhos. Espelhos dão a amplitude às áreas externas, que ganharam novos contornos e espécies botânicas sob o minucioso trabalho de Luiz Carlos Orsini, o mesmo que projetou os jardins do Instituto Inhotim, em Minas Gerais.

"Tudo é diferente. O modo de interpretar e ocupar o lote, a forma e a função dos elementos construtivos, o diálogo entre a casa e a cidade. E principalmente a utilização de materiais simples, na sua forma original, o que chamaram de brutalismo paulista", explica. Essa influência da escola de arquitetura brutalista se traduz na exposição de aspectos estruturais das construções e no uso de materiais como aço, vidro, madeira e concreto armado.

No Brasil e em São Paulo, a corrente extrapolou seu conceito estético e foi empregada também como instrumento de ativismo. "A casa teve sua importância social e política, pois foi um ponto da militância contra a ditadura e teve boa parte da história da arquitetura brasileira dos anos 50 a 80 discutida ali".

Café e coworking

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Tudo mudou e nada mudou. A casa permanece viva como se Artigas simplesmente fosse descer as escadas a qualquer momento, mesmo sem boa parte da mobília original, que incluía itens desenhados pelo arquiteto curitibano.

Para a consultora financeira Glaucia Amorim, que frequenta o coworking há três meses, o ambiente aconchegante e tranquilo a permite que se concentre no trabalho. "Um ponto importante é que eu queria uma sala de reunião reservada e um lugar acolhedor para levar os clientes para um bom café. Aí encontrei a Casa Artigas", conta.

E dá para matar a fome também. As refeições são servidas no agradável pátio, que oferece de bandeja um convite a desacelerar. No sofisticado menu, há opções do café da manhã ao chá da tarde. O tostex da casa (R$ 18) é elaborado com presunto Royale e queijo mussarela cremoso no pão de brioche, e o bolo de banana leva cobertura de doce de leite (R$ 9). Ambos vão bem com o café Artigas (R$ 10), coado na hora, feito com grãos e torra especial, trazido diretamente do Paraná. Sabor marcante, como tudo que o rodeia.

Vai lá:

Casa Vilanova Artigas - Rua Barão de Jaceguai, 1.151, Campo Belo, São Paulo.
Quarta a sábado, das 10h às 17h.
Telefone: (11) 3854-5636
Entrada gratuita.

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